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Carlos Frederico
Marcângelo
Niterói, RJ
As
baterias recarregáveis de níquel-cádmio (ni-cd) são
gêneros de primeira necessidade no modelismo radiocontrolado.
Cuidar delas, portanto, é tão importante quanto tê-las
e, para isso, é preciso um ciclador. Por definição,
ciclador é algo capaz de realizar automaticamente uma
sucessão completa de eventos, terminando exatamente
no ponto em que começou.
Os
eventos envolvidos na ciclagem de uma bateria de ni-cd,
partindo de seu estado de carga máxima, consistem de:
1 - um período em que ela se descarrega, deixando fluir
corrente elétrica a uma taxa constante, até alcançar
um patamar mínimo de carga associado a uma determinada
tensão (voltagem); 2 - Um período de recarga, em que
ela recebe energia também a uma taxa constante (não
necessariamente igual à taxa de descarga), até alcançar
novamente sua condição de carga máxima.
Há
inúmeros dispositivos cicladores no mercado, desde simples
descarregadores não automáticos até equipamentos de
grande precisão, capazes de dar informações diversas
a respeito da saúde da bateria ou do "pack"
composto de várias células. O Super Cycler,
fabricado no Brasil pela Planecon, faz parte desse rol de cicladores
de alta qualidade. Para perceber sua versatilidade e
utilidade, é necessário, antes, ter uma idéia do processo
físico-químico em curso numa célula de ni-cd.
Simplificando
a teoria, imagine uma micro-usina hidrelétrica composta
por dois baldes, um cheio de água sobre uma mesa, outro,
vazio, no chão. Você tira proveito da força da gravidade
para fazer a água do balde mais alto escoar para o do
chão. Na queda, o fluxo de água pode fazer girar um
dínamo e produzir eletricidade. Ao se esgotar a água,
acaba a eletricidade. A menos que você coloque mais
água no balde sobre a mesa e repita o processo.
Uma
bateria é como uma micro-usina desse tipo, só que sua
força motriz não é a gravidade, mas são sim as tensões
elétricas entre moléculas de substâncias diferentes:
umas puxam elétrons, outras empurram, de modo que se
estabelece um fluxo de carga que dura enquanto houver
um certo desequilíbrio eletroquímico, equivalente, no
caso da água, à diferença de altitude entre os dois
recipientes do líquido.
As
baterias de ni-cd são interessantes justamente porque
permitem restabelecer o desequilíbrio eletroquímico
entre seus dois constituintes básicos. Assim, podem
ser usadas inúmeras vezes. Entretanto, a química desses
apetrechos é caprichosa: cobra impostos à granel, exige
ambiente saudável e temperatura amena. Liberam calor
durante a carga e a descarga, de modo que podem se superaquecer
e se estragar se não houver ventilação. Em temperatura
muito baixa, ficam, digamos, com preguiça e adormecem.
Há
ainda outras frescuras: seus componentes são sólidos,
o que torna mais difícil restabelecer o desequilíbrio
eletroquímico do qual elas dependem. Líquidos em geral
são quimicamente mais promíscuos, aceitam com poucas
reclamações arranjos e rearranjos moleculares e facilitam
as idas e vindas de elétrons.
Para
se ter uma idéia das dificuldades impostas pelo estado
sólido dos componentes de uma bateria, veja um exemplo
intermediário. Imagine se a nossa micro-usina, em vez
de hidrelétrica, fosse "gosmaelétrica", ou
seja, movida por um fluido não em estado líquido, mas
sim pastoso e crudento, como uma gosma de alta viscosidade
que se solidifica caso permaneça em repouso por algum
tempo.
Pois
o que acontece com as baterias de ni-cd é mais ou menos
análogo a isso. Dificilmente você usa toda a carga disponível
em um pack. Sempre sobra pelo menos um pouco ao voltar
da pista. Essa parte da carga não consumida corresponde
a um certo potencial eletroquímico que tende a se "solidificar",
ou melhor, a se anular por desuso. Recorrendo à analogia
com a hipotética gosma da nossa micro-usina: solidificada,
ela não pode escoar e, portanto, é incapaz de gerar
energia.
Em
outras palavras, se hoje seu pack de ni-cd tem a capacidade
de fornecer energia elétrica numa quantidade definida
por um índice igual a 100, mas você só usa o correspondente
a 70, os 30 restantes tendem a se extinguir na prática.
Com o tempo, seu pack não poderá mais fornecer energia
em quantidade igual a 100, mas só 70. Os espertos no
assunto chamam a isso de "efeito memória".
A bateria
de ni-cd "lembra" que você não usa toda a
carga, mas só 70% dela, e estabelece por conta própria
um outro referencial para o índice "zero"
de carga: um dia você pensa que ainda tem meia hora
de vôo, mas tem só 15 minutos. E se estrepa. Por isso,
se diz que usar com freqüência as baterias de ni-cd
lhes dá mais saúde do que deixá-las guardadas. Aqui
entram em cena os cicladores.
De
volta para casa, você liga o pack de ni-cd nesse dispositivo
e ele completa a retirada do que resta de carga, até
um certo patamar de voltagem. Depois, automaticamente
o recarrega. Assim, não há "sobras" de carga
que se "solidifiquem". O ciclador "obriga"
a bateria a "lembrar" que seu índice de carga
máxima é sempre igual a 100, não 70 ou 60 ou 50 etc.
O Super
Cycler da Planecon
faz isso e algo mais. Ele pode ciclar dois packs simultaneamente
(por exemplo, de transmissor e de receptor) e, ao contrário
dos cicladores mais comuns no mercado, pode ser programado
em função do número de células. Isso significa que é
possível ciclar desde simples baterias para incandescer
velas (do tipo McDaniel Ni-Starter) até packs para receptor
de automodelos (de 6 células e 7,2 V) ou para transmissor
de aeromodelos (de 8 células e 9,6 V). O tempo de carga
automática é de 15 horas.
Manual bem feito e plugues prontos para os principais sistemas
de RC
O
Super Cycler pode ciclar baterias de 1 a 8 células de
1,2 V cada
No
display do aparelho, há dois botões para programação
indicados por TX e RX. Geralmente, esses códigos se
relacionam ao transmissor (TX) e ao receptor (RX), mas,
no Super Cycler, eles são usados apenas
por comodidade. Na verdade, tanto a unidade TX quanto
a RX podem ser programadas para qualquer tipo de pack
de até 8 células de 1,2 V cada uma. A nomenclatura tradicional
serve para evitar que, uma vez programado o ciclador,
o modelista se confunda plugando os packs do receptor
ou do transmissor em lugares errados. É claro, a programação
pode ser refeita sempre que necessário, antes de se
iniciar uma ciclagem.
Como
funciona
Por
exemplo, nas fotos abaixo, o display mostra as variáveis
de um pack comum de receptor de aeromodelos de 4 células
de 1,2 V (5,6 V) e capacidade total nominal de 500 mAh
(miliampère-hora). Ele foi plugado na unidade RX e carregado
durante 15 horas (tempo automático de carga) a uma taxa
de 50 mAh (a recomendada pelo fabricante do pack) e,
descarregado a uma taxa de 250 mAh, aproximadamente
a média de consumo de um modelo com quatro servos em
operação normal.
O display
indica o tempo em minutos que o pack pode ser usado
com segurança
Nessas
condições, o pack levou 121,2 minutos para ser descarregado.
O tempo (com fração decimal) é mostrado pelo display
luminoso piscando após a descarga. Isso significa que
você poderia voar com segurança cerca de duas horas
ou fazer 12 vôos de dez minutos cada. Aliás, o manual
do produto não informa que o número piscando no display
depois da descarga representa o tempo dessa operação
(a fábrica informa ter corrigido o lapso nas edições
seguintes). Com tal ressalva, o manual é bem ilustrado
e explicado, não deixando dúvidas sobre como operar
o instrumento e dele tirar proveito para aferir a saúde
das baterias.
Após
uma ciclagem completa, o Super Cycler
informa também a quantidade total de carga drenada e
a voltagem. No mesmo exemplo acima, o pack testado forneceu
carga de 505 mAh e, ao término da recarga, indicou tensão
de 5,6 V (veja as fotos). Ou seja, mostrou-se em perfeitas
condições, posto que sua capacidade nominal é de 500
mAh e exatos 5,6 V.
As taxas de carga e descarga são programáveis,...

...mostra
sua capacidade real de carga em mAh...
... e indica a voltagem em qualquer fase
da ciclagem.
Outra
característica importante do Super Cycler
consiste no fato de ele interromper automaticamente
a recarga após 15 horas e manter pulsos intermitentes
de corrente equivalentes a 20% da taxa de carga programada.
Tais pulsos correspondem aproximadamente à taxa em que
a bateria se descarrega por si só, mesmo não estando
em uso. Assim, o Super Cycler pode
manter um pack com carga máxima por tempo ilimitado
e em condições de uso a qualquer momento.
Outra
vantagem do aparelho nacional em relação aos importados
mais comuns no mercado é que ele vem com cabos e plugues
prontos e adaptáveis aos conectores das principais marcas
de equipamentos de radiocontrole (o manual cita apenas
Futaba, Airtronics e JR, mas os plugues também se adaptam
aos da Hitec). A Planecon poderia fornecer também um plugue
para baterias do tipo McDaniel Ni-Starter, para incandescer
velas. O Super Cycler ficaria, assim,
mais do que perfeito!
| Ficha
técnica |
| Nome: |
Super
Cycler |
| Tipo: |
Ciclador
programável para baterias de ni-cd |
| Tensão
de operação: |
110
ou 220 V |
| Freqüência
de rede: |
50
ou 60 Hz |
| Consumo
máximo: |
500
mAh |
| Potência
dissipada: |
10
W (em descarga) |
| Taxas
de carga: |
25,
50, 75, 100 e 125 mAh |
| Taxas
de descarga: |
125,
250 e 500 mAh |
Pontos
positivos
Programável para packs de 1 a 8 células de 1,2 V cada.
Plugues prontos adaptáveis aos packs das principais marcas
de sistemas de RC.
Leitura direta do tempo de uso com segurança de um pack com
carga total.
Pulsos intermitentes de corrente após 15 horas de carga automática.
Ponto
negativo
Primeira edição do manual não informa que o display luminoso piscando
após a descarga indica o tempo dessa operação.
Fabricante
Planecon - São
Paulo, SP - Fone/fax: 011-2976-8577
Esta
matéria foi editada pela equipe da revista
Modelismo em Notícias (MeN).
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